Mas hoje ele apareceu para mim.
Fui tomar banho às cinco da manhã, porque o sono acabou às quatro e eu vi que não tinha jeito de voltar a dormir.
Estava com a cabeça cheia de xampu quando ele entrou no banheiro.
Pediu licença para urinar enquanto eu estava no banho.
Eu disse:
- Oi Freud, vai aí.
Aí ele foi, essa coisa prosaica que não precisa descrever. E começou:
- Marcelle, todo mundo acumula tensões.
- Lá vem tu querendo comer tua mãe.
- Não, olha só.
- Hum.
Sacudiu a "coisa". Pensei imediatamente "Ele não vai lavar as mãos ele não vai lavar as mãos ele não vai lavar...", mas nisso ele abriu a torneira, com a graça de Deus.
- Não interessa que tipo de tensão. Todo mundo acumula.
- Certo.
- Se tu tem um dia cheio, acumula. Se tem um dia vazio e se sente mal, significa que de alguma forma também acumulou alguma tensão, certo?
- Depende. Se o mal estar for ansiedade, pode até fazer sentido. Se for vontade de enfiar a cabeça embaixo do trem, não estou tão certa.
- Ok. Fixa na ansiedade. Imagina que a representação desse acúmulo de tensão seja um
buffer. Tu vai acumulando, ele vai enchendo.
Encostou-se na parede. Nós dois, ali, eu dentro do box, ele de cueca samba-canção e meias, encostado na parede, trovando fiado, àquela hora, me lembrava minhas tias.
- Tá.
- Existem várias formas de aliviar a tensão. Pensa em uma.
- Sair com os amigos. Beber cerveja. Fazer sexo.
- Sim, ótimo.
- Lá vem tu querendo comer tua mãe.
- Muito bem. Marcelle, tenho a satisfação de te apresentar ao conceito de Punheta Mental.
Acho que até corei de vergonha. Fiz que não.
- Pensa: não dá para negar a relação entre prazer e alívio da tensão. Tensão é quase o contrário de prazer. Vai dizer.
- Ok, continua.
- E tu sabe que isso tem fundamento, uma vez que o sistema de recompensa cerebral está envolvido em muitos sintomas ansiosos relacionados a rituais e comportamentos compulsivos...
- Pula essa parte.
- Veja: compulsão alimentar. Comida igual a prazer. Vai lá, tá ansiosa, abre a geladeira, come a geladeira, alivia a tensão momentaneamente.
- Ok.
- Marcelle, punheta mental dá prazer. Não é de graça que é chamada punheta. Ora, tem um caráter repetitivo e termina em orgasmo.
Acho que ergui as sobrancelhas, estava entendendo onde ele queria chegar.
- Define punheta mental, Frêude.
- Qualquer coisa que dê prazer e esvazie o
buffer. Excetuam-se, é claro, as formas naturais e não compulsivas de fazer isso. Mas compulsivas tem várias. Comer. Fofocar. Espremer espinha. Acessar o Facebook.
- Hum, acessar o Facebook de cinco em cinco minutos.
- Ok, Marcelle, tu pegou. Voltemos ao
buffer. Ele enche com tensão e esvazia com o prazer.
- Cacete! A gente esvazia o
buffer com punheta mental e depois não quer transar de noite! Nem precisa!
- Voila!
- Talvez o sexo seja uma das formas mais importantes de esvaziar a tensão e é natural e é fisiológico só que como reprimimos ele porque ele é feio então a gente transborda tensão pelos ouvidos e vira um poço de punheta mental para reduzir a tensão que não pode ser aliviada de outra forma, porque é feio!
Levei uns segundos para voltar.
- Né?
Ele tinha sumido. Desliguei o chuveiro, me sequei, enrolei a toalha na cabeça. Então me dei conta.
- Porra, eu sabia que ele ia terminar em comer a mãe.