terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Eu morri, ai


Tinha um pensamento repetitivo:
"Engoli um boi".
Eu pensei tanto, eu quis tanto resolver esse buraco no peito, que ganhei um boi no estômago.
O boi me protegia. Não me deixava pensar mais. Estávamos felizes.
Eu sabia que ele nasceria, uma hora.
Queria ficar grávida para sempre.
Um dia sonhei com meu crânio. Espiei pelo buraco do ouvido: tinha uma luzinha vermelha dentro. Essa luzinha vermelha era um pequeníssimo boneco que se debruçava sobre uma mesa de desenho. Eu dizia:
- Tu não sou eu, cara pálida.
Ele não me escutava.
Insisti:
- Quem é tu?
Acordei, meu boi estava chutando muito.
Era madrugada, sempre é madrugada.
Ouvi uma voz. Não podia acreditar. Era o boi.
- Tu morreu, Marcelle.
Eu morri?
- Tu morreu, Marcelle. Faz tempo.
Eu sorri. Finalmente poderia viver como se já tivesse morrido.
- Tu sempre esteve morta.
Eu sabia que deprimir-me era um jeito birrento de ter razão. Meu boi chutava quando eu fazia birra. Não pude mais me deprimir.
Eu sabia que angustiar-me era uma forma birrenta de ter o controle de todas as coisas. Meu boi chutava quando eu me angustiava. Não pude mais me angustiar.
Ouvi a musiquinha que ele cantava:
"Murri, ai,
Eu murri,
Murrir não é triste,
Não é triste murrir".
Agora que sou um corpo, não posso mais nada. Sou um corpo que bóia na água. Como corpo que bóia na água, nada posso com as correntes. É tão bom olhar o céu das madrugadas e pensar que poderia cair para cima. O que nos segura é uma coisa invisível chamada gravidade e existe porque estamos na superfície de uma coisa muito grande. Sempre tive medo de confiar nas coisas invisíveis. Só que agora meu boi diz: "Marcelle, agora tanto faz, porque tu já morreu mesmo".
Agora tanto faz tanta coisa. Eu só sinto essa paz de boiar para lá e para cá.
A musiquinha dele está na minha cabeça até agora.

Ilustração: A Mulher dos Vermes. Hidrocor e lápis sobre papel de forrar gaveta.

Um comentário:

Lucas disse...

"Eu sabia que deprimir-se é um jeito birrento de ter razão."

Isso é fato. Daí que eu acho que ser mimado e ser deprimido são coisas auto-relacionáveis.

De resto, acho que só a partir da morte que se pode viver, sim. Só se constroi a partir do nada, ou algo assim.