terça-feira, 31 de janeiro de 2012

El Tatu

Neste momento a Marcelle embola sua pequena carapaça de tatu-bola e se prepara para rodar até o deserto do Atacama. 
Tchau, Marcelle, tchau!
Quando estiver por aí, avisa.


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Espelho




Palco. Uma penteadeira ao centro, com um grande espelho oval, e uma cadeira disposta diante dela. Foco de luz intenso sobre a cadeira. Mais nada.

- Espelho, espelho meu, haverá alguém mais lindinha do que eu?
- Não, Marcelle.
- Espelho, espelho meu, haverá alguém mais engraçadinha do que eu?
- Não há, Marcelle.
- Espelho meu, quem é a mais esperta?
- Tu, Marcelle.
- E quem é a mais inteligente?
- Tu, Marcelle.
- E quem é mais estudiosa e dedicada?
- Tu, Marcelle.
- Espelho, esse fio de cabelo branco é meu?
- É teu, porque não pode ser meu.
- Mas eu não quero cabelo branco, espelho.
- Tu podes matar todos os cabelos brancos, compra um remédio.
- Quem está dizendo isso é tu ou eu, espelho??
- Tu, Marcelle, porque não pode ser eu.
- O que diz tu de remédio para matar cabelos brancos, espelho?
- Digo o que tu diz, Marcelle.
- O que eu digo é para matar os cabelos brancos?
- Sim.
- Mas os cabelos brancos são vermes?
- Sim, remédio para vermes.
- Quando eu crescer, terei a cabeça cheia de vermes?
- Seus cabelos brancos.
- Isso não pode ser.
- Isso não pode ser.
- Onde compro o remédio?
- Onde compro o remédio?
- Espelho?

Meu reflexo é, agora, uma nuvem.

- Onde estou eu?

A nuvem tem movimentos lentos. Vejo um coelho na nuvem. Um revólver. Um índio. Uma flor. Um bebê. Meu filho. Eu. Uma bolsa. Dois revólveres. Um tiro.

Que susto.

- Que sonho estranho, espelho.
- Interessante.
- Ainda bem que acordei.
- A gente acorda.

Pausa. Um longo e profundo suspiro.

- Quem é linda?


Ilustração: "The goat, the hat and the crow", Fabiano Gummo, 2011. India ink on paper. Extraído de http://fgummo.blogspot.com/

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Era uma vez,

Uma formiga que queria ser um cupim.

Ela pensava: O dia em que me tornar um cupim, serei capaz de comer o Universo!

A formiga estudou muito. Era a primeira da classe. Formou-se no primeiro grau. Formou-se no segundo grau. Fez vestibular para Astrofísica. Não passou. Não cogitou desistir. Fez cursinho. Estudou obcecadamente. Passou.

No fundo, a formiga acreditava que, quando tivesse o Universo na pança, poderia realizar as mais incríveis coisas. Ela nem sabia que coisas eram essas, mas deviam ser coisas muito extraordinárias, em sua cabeça de formiga.

Formou-se. Pendurou em sua porta: Dra. Formiga, Consultas Sobre Física e Astronomia.

Programou o mestrado.

Ganhou bolsa para realizar o doutorado na Moon's University, a mais renomada escola de Astrofísica de que ela tinha notícia.

Despediu-se do formigueiro, morou na Lua por seis anos.

Voltou falando três línguas e com o Lattes mais bonito do mundo.

***

No dia em que voltou, a formiga pensou: Agora, estou perto de me tornar um cupim!

No entanto, nada tinha mudado, nem nela, nem no formigueiro.

Havia passado muito tempo, mas ela tinha a sensação de que não. Sentia-se a mesma de quando decidira ser cupim. Estava tão rigorosamente a mesma, que nem ao menos o envelhecimento tinha chegado para a formiga. Sentiu um mal-estar intenso e ininterrupto.

FINAL #1:
A formiga continuou tentando ser cupim e, como isso não é possível, foi infeliz para sempre.

FINAL #2:
A formiga desistiu de ser cupim, amargurou seu fracasso, azedou-se e foi infeliz para sempre.

FINAL #3:
A formiga lembrou-se da sensação que teve muitas vezes, ao estudar as teorias astrofísicas, de que, quanto mais estudava, menos sabia. Concluiu que havia muitas coisas que ela não sabia, e adotou uma postura humilde. Muitas pessoas disseram muitas coisas para ela, e ela aceitou a ajuda. As coisas sem valor permaneceram sem valor. As coisas valorosas deram frutos, e esses frutos devolveram o envelhecimento à formiga. Quando envelheceu, as coisas retomaram seu tamanho. Quando as coisas retomaram seu tamanho, ela viu claramente que não precisava ser cupim para sentir-se feliz. Então sentiu-se feliz e transformou-se em sua paz para sempre.