terça-feira, 20 de dezembro de 2011

E aí eu engoli um boi.


Estava de tarde na sala da minha casa bagunçada olhando para o alto. Merda de lâmpada, eu pensava, naquele exato momento, quando entraram as vespas e falaram em coro Mas se tu trocar nós te cravaremos nossos ferrões. Eu falei a elas Oi, bichinhos, e elas vieram e se colaram em meus dedos, suas patas entrando em meus ossos e elas virando as aranhas de sempre. É claro que eu senti dor, mas estava um tanto compulsiva por me tornar A Mulher da Capa Amarela e sabia que sem heroísmos eu era só aquele fragmento parado olhando para o teto no qual a merda da lâmpada jazia, inútil e poluente. Arranquei cada uma das aranhas e comecei a viajar no veneno.

Quando se está desesperado, se vai ao lugar errado buscar a coisa errada, estava escrito num banheiro dia desses. Eu tenho uma despensa cheia de pessoas que me amam mas eu vou lá e pego mais pessoas e soco na despensa. Vai que uma hora eu pego uma e ela não está funcionando, vai que eu fico sem. Aí, meu filho, meu amigo, desculpa, tu, como eu fico? Aí eu sou o fragmento, sem luz, em casa, aí escurece e aí fodeu. Enquanto eu tiver gente na despensa eu tenho como acender alguma coisa, os cabelos queimam bem, até amanhecer ou voltar a energia. Aprendi que lembrar de uma coisa ao fazer outra demonstra que elas estão de algum jeito no mesmo combo, e meu raciocínio envenenado diz que desespero + coisas erradas + lugar errado + pessoas na despensa quer dizer alguma coisa, que nem mensagem subliminar. Eu faço uma força do cão quando percebo as mensagens subliminares correndo pela casa. Viro a noite e o dia e a noite, não saio, não como, não arrumo nada e não lavo a louça. Quando vejo, tenho um monte delas amontoadas em cima da mesa e, sabe como é, já dizia a Boitatá que bicho bom é bicho comido. Aí eu engulo tudo de uma vez e fico assim, cheia até as tampas.

Até náusea eu ando sentindo, com esse boi no estômago. A médica disse que eu tenho que fazer repouso e que não tem nem previsão de quanto tempo. Pode levar uma semana ou um ano, disse ela, e eu nem fui irônica com o não prognóstico. Tô feliz que nem grávida, com o meu boi; na verdade tô feliz com a ideia de umas férias forçadas por um cuidador que, haha, me cuida, mesmo que mediante pagamento. Sim, já enfiei a médica na despensa e não pretendo acender os cabelos dela para fazer luz se um avião bombardear todos os pontos de distribuição de energia do país inteiro.

Então tá, até mais, vizinho. Vou lá. Desligo.


Ilustração: "We may write and absolutely forget", Fabiano Gummo. Jun 2011. Extraído de http://fgummo.blogspot.com/ .

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