Palco. Uma penteadeira ao centro, com um grande espelho
oval, e uma cadeira disposta diante dela. Foco de luz intenso sobre a cadeira.
Mais nada.
- Espelho, espelho meu, haverá alguém mais lindinha do que
eu?
- Não, Marcelle.
- Espelho, espelho meu, haverá alguém mais engraçadinha do
que eu?
- Não há, Marcelle.
- Espelho meu, quem é a mais esperta?
- Tu, Marcelle.
- E quem é a mais inteligente?
- Tu, Marcelle.
- E quem é mais estudiosa e dedicada?
- Tu, Marcelle.
- Espelho, esse fio de cabelo branco é meu?
- É teu, porque não pode ser meu.
- Mas eu não quero cabelo branco, espelho.
- Tu podes matar todos os cabelos brancos, compra um
remédio.
- Quem está dizendo isso é tu ou eu, espelho??
- Tu, Marcelle, porque não pode ser eu.
- O que diz tu de remédio para matar cabelos brancos,
espelho?
- Digo o que tu diz, Marcelle.
- O que eu digo é para matar os cabelos brancos?
- Sim.
- Mas os cabelos brancos são vermes?
- Sim, remédio para vermes.
- Quando eu crescer, terei a cabeça cheia de vermes?
- Seus cabelos brancos.
- Isso não pode ser.
- Isso não pode ser.
- Onde compro o remédio?
- Onde compro o remédio?
- Espelho?
Meu reflexo é, agora, uma nuvem.
- Onde estou eu?
A nuvem tem movimentos lentos. Vejo um coelho na nuvem. Um revólver. Um índio. Uma flor. Um bebê. Meu filho. Eu. Uma bolsa. Dois revólveres. Um tiro.
Que susto.
- Que sonho estranho, espelho.
- Interessante.
- Ainda bem que acordei.
- A gente acorda.
Pausa. Um longo e profundo suspiro.
- Quem é linda?
Ilustração: "The goat, the hat and the crow", Fabiano Gummo, 2011. India ink on paper. Extraído de http://fgummo.blogspot.com/

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