segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Revolta dos Parafusos

Depois de três anos de terapia cognitiva, não tenho mais a terapeuta imaginária muito maquiada que olha com desprezo para os meus sapatos marcados por mordidas de cachorro e que ao fim da sessão ergue as sobrancelhas com desaprovação e vai embora num cavalo sem cabeça de cujo cotoco de pescoço saltam labaredas que, curiosamente, nunca a chamuscam.

Minha terapeuta imaginária é agora uma mulher de meia idade em trapos que olha as minhas unhas pintadas de vermelho com inveja e tristeza. Faz cara de dor a cada vez que se mexe na poltrona e me faz sentir-me extremamente constrangida toda vez que quero expressar algo que me traz sofrimento. Ao fim da sessão, só falei coisas amenas; então ela estende a mão como uma mendiga e, nela, eu devo colocar absolutamente tudo que tenho.

No dia em que eu estiver curada, minha terapeuta imaginária será alegre, enérgica e pacífica, e usará de uma metodologia essencialmente prática. À beira da minha queda de um prédio de mil andares, ela vai me empurrar só para provar as coisas sobre as quais eu não possuo poder algum. Eu vou me esborrachar, é claro. Então estará eliminada minha ilusão de que é mau quem não faz o que não é possível ser feito.

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